"Não sou muito fã de palavras, prefiro algo mais concreto."
— Que ridículo. — Falei bem alto, várias pessoas me olharam. Só que para elas aquilo é a coisa mais normal do mundo. O fato de estarem naquele lugar, quero dizer.
— Não quer falar mais alto? — Olivia me repreendeu. — Acho que alguém na Austrália ainda não escutou.
— Aaaaa. Qual é, Olivia? Eu não preciso dessas coisas. — Fiz menção de ir embora, mas Olivia era mais forte e me segurou.
— Emma. Você não precisa agarrar o cara, vocês podem só conversar.
— E quem disse que EU vou agarrar? É claro que se ele for lindo, gostoso e com um sorriso perfeito eu agarro. Mas e se ele for feio e/ou chato demais? Pior: e se ele tiver um hálito horrível de agüentar? — Estremeci ao pensar nisso.
Olivia havia me levado ao parque de diversões da nossa cidade. Era uma porcaria, pra variar. E o “brinquedo” que ela me levou era o Túnel do Amor. Fala sério.
Só que não era um Túnel do Amor normal, aonde casais vão para ficarem se amassando no escuro. No parque da nossa cidade o Túnel do Amor pretendia FORMAR casais. Tipo, tínhamos que fazer duas filas: uma para garotos e uma para garotas. As duas filas eram separadas por um muro, para que ninguém visse com quem iria entrar no túnel.
— Mais um pouco e será a nossa vez. — Ela disse toda animada.
— Eeeeeba. – Ironizei.
— Emma. — Olivia colocou a mão no meu ombro e me olhou séria. — Tá na hora da gente arrumar um namorado, né?
— Eu tinha um namorado. — Protestei. — E eu amo ele.
— Falou certo: tinha. Mas ele se mudou para o outro lado do país. Ele até deve ter outra namorada. E você está aí dizendo que o ama. E provavelmente ele nunca voltará para cá.
— Espera aí. — A interrompi. — Você quer me animar ou me deixar pra baixo?
— Ah, desculpa Emma. — Ela me abraçou. — Eu só queria fazer você abrir os olhos.
— Eles estão bem abertos. — Encarei Olivia com os olhos arregalados.
— Não desse jeito, tapada. — Ela riu. — Você me entendeu.
— PRÓXIMOS. — O carinha que estava cuidando dos “casais” que entravam no túnel gritou.
— Sua vez. — A Olivia praticamente me empurrou para dentro do túnel. Nisso eu bati em alguém e caí no chão. De bunda.
— Desculpa. Minha amiga me empurrou. — Falei enquanto o ser {?} me ajudava a levantar.
— Tudo bem. – Eu conhecia aquela voz. — Vamos?
Foi então que eu vi a cara dele, e quase caí no chão de novo.
— Você?! — Olhei para trás e vi com quem Olivia iria entrar no túnel. Com o Alexander, amigo de William (o cara mais lindo do mundo). Pelo menos alguém vai ficar feliz com tudo isso.
O caso é que eu vou com o William no túnel. Ele pode até ser lindo e tal, mas eu o odeio. É por culpa dele que agora eu sou uma adolescente traumatizada. Estou exagerando, eu sei. Mas eu tive uma infância perturbada e ele é o principal responsável.
William ainda esperava a minha resposta. Olhei para Olivia pedindo socorro e ela só me mandou seguir em frente. Que amiga eu tenho, não?
— Já que não tem outro jeito. — Dei de ombros e segui para dentro, e quando estávamos longe dos olhares dos outros fiz questão de me afastar dele.
— Emma, venha. — Ele entrou no barquinho que só cabem duas pessoas. — Não deve ser tão ruim assim passar 20 minutos do meu lado.
— Acredite, é sim.
— Moça, — O carinha que cuidava do túnel me chamou. — é melhor entrar logo, há outras pessoas que querem entrar também.
— Tá! — Falei de má vontade e sentei ao lado de William, que se aproveitou da falta de espaço para colocar o braço em volta do meu dos meus ombros.
Nos primeiros cinco minutos fiquei olhando para qualquer lugar que não fosse na direção de William. Ao contrário dele, que me encarava descaradamente.
— Qual é, Emma? Estamos no túnel do amor. — Ele enfatizou a parte “do amor”. — Podíamos pelo menos conversar.
— Hunf. — Resmunguei.
— Não me obrigue a te agarrar. — Apesar de não estar olhando para ele, pude perceber um tom divertido e malicioso naquelas palavras.
— Não ouse! — Me virei para ele, meu rosto ficando a centímetros de distância do dele. — Não...
Aaaaaaai... Por que ele tem olhos tão hipnotizantes?
— Não, William! — O empurrei para longe, como se aquilo fosse mesmo possível. — Sem chance.
— Me dê um motivo. — Sua voz tinha o tom de quem não acreditava que levou um fora.
— Eu não quero. Te odeio. E... Eu não quero, ué. Pronto, três motivos.
— Mas você repetiu um. — William protestou.
— De qualquer jeito foi mais de um.
— Hunf. — Foi a vez de ele resmungar e virar o rosto.
E então eu comecei a rir. Pelo menos eu estava achando aquela situação bem engraçada.
— Tá rindo do que, louca? — William olhou pra mim, e eu ri mais ainda ao ver sua expressão.
— Não sei. — Continuei rindo por um bom tempo.
— CHEGA! — William disse bravo. Não pensei duas vezes e parei.
— É que eu achei engraçado...
— Olha, por que a gente não pode conversar? Sei que brigamos no passado. Mas o destino fez com que a gente passasse 20 minutos sozinhos.
— E você acredita em destino? — Perguntei curiosa. Não sabia que William era disso.
— Só quando ele me traz coisas boas. — Dito isso ele avançou na minha boca.
O susto fez com que eu ficasse paralisada, mas não levou muito tempo e minha consciência tinha voltado. Empurrei William de novo.
— Aposto um beijo que você me quer. — Ele disse de um jeito sedutor, sussurrando no meu ouvido.
William sorriu ao perceber que eu havia ficado paralisada com aquela atitude dele. Não vou dizer que não gostei. Porque... UAU! Nunca que eu ia imaginar que William era do tipo que fazia joguinhos.
— Apostado. — Apertei a mão dele, e ele foi se aproximando de mim novamente. — Mas eu não disse que queria você.
E de novo, William virou o rosto para o outro lado. Dava para perceber que estava pensando, ou melhor: planejando algo. Às vezes ele balançava a cabeça como se não gostasse do pensamento.
— E que tal isso. — Ele escolhia bem as palavras: — Aposto um beijo que você não fica comigo.
— Apostado. Espera aí. O QUÊ? — Mal deu tempo de respirar direito e William avançou em minha boca como uma leoa em defesa dos seus filhotes. Ok, péssima comparação.
Mas era mais ou menos isso mesmo. Dava pra sentir o quanto ele queria me beijar. Não vou mentir. Quando vi o quão lindo ele se tornou deu vontade de agarrá-lo na frente de todos. Mas daí a lembrança da minha infância me veio à mente e eu desisti da idéia. E foi o que aconteceu agora.
— Não posso. — Preciso dizer que o empurrei de novo?
— Emma. O que houve? — Ele olhava bem fundo nos meus olhos. — Você quis. Eu percebi. Mas...?
— William. Eu te odeio desde que éramos pequenos. E não sei se conseguirei te perdoar por aquilo...
— Me perdoar por o quê? Eu nunca fiz nada contra você.
— Ah, não é? “Pedaços de revistas espalhados pelo chão de um quarto, com latas de tinta ao lado” não te lembra nada?
— Do que você está falando? — Passado um minuto ou dois ele entendeu. — Isso faz tanto tempo. E como você disse: éramos pequenos.
— Você sabe quanto levou para eu convencer os meus pais a me darem todas aquelas revistas do X-men? Eu estava com a metade da coleção completa. E você simplesmente arrancou quase todas as páginas, pintou outras. Não deixou nada.
— Emma. — William segurou meu rosto firme. — Éramos duas crianças. E... E eu...
— Você...?
— Hora de sair, pombinhos. — O cara que cuidava do túnel falou todo alegre, mas não estava tão alegre quando reparou que eu e William não estávamos nos agarrando. — Por que não estão se beijando? Sabe, normalmente os casais até brigam comigo quando chega a hora de sair.
— Nós dizemos “aleluia”. — Falei, saindo do barquinho depois de William. — William, me espera! O que você ia dizer lá dentro?
— Não tem mais importância.
— Vai me deixar curiosa? — É sério. Eu fiquei realmente curiosa.
— Vou. Olha, o Alexander e a Olivia já estão vindo.
Esperamos juntos, e em silêncio, o barco dos nossos amigos se aproximarem. Um silêncio estranho se formou, se me permite dizer. Parecia que o William tinha algo muito, mas muito importante para me dizer. Pelo jeito que ele segurou meu rosto, olhou nos meus olhos... não podia ser algo sem importância.
— Hora de sair, pombinhos. — Ouvimos o cara falando alegre de novo. — Isso é que é casal. — Percebi a indireta quando ele nos olhou.
— Idiota. — William resmungou. Pelo menos eu entendi como um resmungo.
Olivia e Alexander quase caíram. Mas como eles queriam caminhar e se beijar ao mesmo tempo? Pareciam dois bobos apaixonados. De qualquer jeito eu fico feliz pela minha amiga.
— Alexander. — William o chamou. — Vamos, temos que ensaiar.
— Ensaiar o quê? — Perguntei curiosa.
— Nós temos uma banda. — Alexander falou, finalmente soltando Olivia. — Mas eu nem sabia que a gente tinha ensaio hoje.
— Marcaram de última hora.
— Ah! Então, estamos no começo ainda. Mas acho que podemos conseguir um contrato com uma gravadora logo, logo.
— Claro que conseguem. — Eu realmente não sabia que a Olivia era tão assanhada. Ela não é – no caso, era – do tipo que vai agarrando os caras primeiros. Deve ser porque ela realmente gosta do Alexander.
Quantas noites Olivia e eu ficamos conversando sobre Alexander. Na verdade ela falava, eu só ouvia.
— Como é o nome? — Perguntei para William, já que Alexander não ia me responder.
— Son of Dork. — Ele respondeu sem me olhar. — Vamos, Alexander. Se chegarmos tarde de novo os caras vão matar a gente.
— Em quantos vocês são?
— Somos cinco, Olivia. Tenho que ir, amorzinho. — Alexander falou todo fofo. — EU TE LIGO! — Ele gritou, porque William o arrastava.
— E então, como foi? — Olivia perguntou toda empolgada.
— Não foi. — Me virei para ir embora do parque.
— Como assim? — Ela corria para me alcançar.
— A gente até se beijou e tal. Mas daí eu me lembrei daquela história com as minhas revistas. E não consegui mais.
— Mas você queria, certo?
— Você viu como o William tá super lindo? É claro que eu queria. Mas não deu.
— Eu acho que você devia esquecer isso. O William parece ser um cara legal. — Olivia me alertou. Claro, ela fala isso porque está super feliz com o Alexander. — Tive uma idéia.
— Fala. — Revirei os olhos. As idéias dela às vezes eram doidas demais para serem colocadas em prática.
— Eu peço para o Alexander se a gente pode ir ao ensaio. Aí você conversa com o William. E a gente ainda vê o Son of Dork. O que acha?
— Tá, tudo bem. — Dei de ombros. — Mas você conseguiu pegar o número dele no meio de todo aquele amasso?
— Cala a boca. — Ela me deu um pedala, e doeu, se quer saber.
Versão William.
— Vocês querem vir ao nosso ensaio? — Ouvi Alexander falando no celular. Ele me olhou desesperado. — Vou ver com o pessoal, amorzinho.
— Diz que sim. — Sussurrei. — Pede para elas irem à sua casa daqui à uma hora.
— Por que na minha casa?
— Porque sim. Responde logo, senão o seu “amorzinho” vai achar que a deixou no vácuo.
— Claro que podem, linda. Vão à minha casa daqui uma hora. Pode ser? — Ele esperou um momento. — Ok, até depois, então. Beijos.
— Seu amor me enoja. — Brinquei. Mas acho que Alexander não entendeu.
— Fala isso porque não conseguiu agarrar a Emma.
— Para a sua informação eu consegui sim. Só que por causa disso que eu fiz quando era pequeno ela não quis mais.
— E agora você vai tentar concertar isso como...?
— Espere e verá. Vamos logo... Temos menos de uma hora até elas chegarem na sua casa.
Fim da versão William.
— Agora que me ocorreu essa idéia.
— Que idéia, Emma?
— O que eu vou falar pro William?
— Sei lá. Chama ele para um canto e o agarre ué.
— Olivia, você não era assim. — Falei brincando. Ela apenas deu de ombros. — Toca a campainha.
— Por que eu?
— A casa é do Alexander. Você toca. Simples.
— Tá bom. — Olivia bufou e tocou a campainha.
Um minuto depois Alexander abriu a porta sorridente.
— Oi, meninas. Entrem.
— Oi, Alexander. — Falamos em coro e entramos na casa dele.
Uau. Que grande. Deve ter uma piscina lá atrás. Eu realmente não sabia que Alexander tinha tanto dinheiro assim. Agora boto fé no relacionamento dele com a Olivia. Tá, eu não sou interesseira, mas desejo uma vida confortável para a minha amiga e meus futuros afilhados.
— Vocês não estão ensaiando? — Perguntei depois de perceber que a casa estava muito silenciosa.
— Sim. Estamos. Lá no porão. — Alexander respondeu meio nervoso. — Mas é que eu vim para cima para pegar... er... alguma coisa pra gente comer. É. Isso.
— Quer ajuda?
— Quero sim, obrigado.
Fomos até a cozinha dele. Que era igualmente grande. Com geladeira de duas portas e tudo o mais.
— Podem pegar uns pacotes de salgadinhos naquela porta? — Ele apontou para a tal porta, e eu e Olivia pegamos.
Vi Alexander pegando só 4 copos, será que estava faltando alguém? Bem que ele poderia pegar copos para mim e para a Olivia também. Que falta de consideração com a visita. Mas acho que ele não queria que víssemos aquilo, pois colocou os copos numa cesta de piquenique, junto com os salgadinhos e o refrigerante.
— Vamos? — Ele foi em direção ao porão. Olivia e eu o seguimos, que escolha tínhamos?
Quando chegamos lá em baixo eu não vi guitarras, baixo ou bateria. Só vi uma caixa. E William ao lado dessa caixa.
— O que está havendo? — Olhei para William.
— Vocês não tinham ensaio da banda? — Olivia perguntou confusa.
— Nós mentimos. — Alexander falou abaixando a cabeça, em sinal de culpa.
— Como assim? Não existe Son of Dork?
— Não é isso, Emma. — William deu um passo em minha direção. — Son of Dork realmente existe. Mas os ensaios são na casa do Noah, não na do Alexander.
— Então por que disseram que era aqui? — Olivia estava um pouco assustada. — AI MEU DEUS. Vocês vão seqüestrar a gente!?
— Seqüestrar? O quê? Não, amorzinho.
— Não me chame de amorzinho. Emma, vamos sair daqui. — Ela nem esperou a minha resposta, foi sozinha para cima.
— OLIVIA! — Alexander gritou, e foi atrás dela. Me deixando sozinha com William.
— Dá para me explicar o que está acontecendo? — Cruzei os braços e fiquei batendo um pé em sinal de impaciência.
— É melhor eu mostrar. — Não entendi o que ele quis dizer com isso.
William abriu a caixa e tirou uma revistinha de lá de dentro. A edição número 1 do X-Men.
— Você...? Por que...?
— Bom, se eu estraguei as suas revistinhas... Acho que eu deveria comprar outras para você. Sei que é importante.
— Obrigada.
— Não tem todas. Falta uma boa parte. Mas já é alguma coisa.
— Por que fez isso? — O encarei confusa. Não é sempre que o cara que destruiu suas revistinhas te dá várias delas para você voltar com a sua coleção.
— Porque... sabe... garotos pequenos fazem coisas com as garotas para chamar atenção quando eles...
— EMMA! — Olivia chegou, para meu azar.
— O que você quer? — Lancei um olhar furioso para ela.
— Ah! Você não...? — Ela olhou para William, mas não consegui ver o que ele fez em resposta. — Desculpa. — E voltou para cima.
— O que você ia dizer?
— Nada. Por que sempre interrompem quando eu... — Não o deixei terminar. Algo me fez querer ir até onde ele estava e beijá-lo. E foi o que eu fiz. — O quê?
— Estou pagando minha aposta.
— Qual delas?
— “Aposto um beijo que você quer”.
Até parece aquela coisa de filme de adolescente, não é? Eu o odiava no começo, mas agora o amo. Mas quem não resistiria a um cara que gastou um monte só para te devolver algo que tirou de você? Ainda mais sendo uma coisa banal como revistas dos X-Men.
Mesmo assim eu amei. Não só a atitude do William. Mas tudo que envolve ele.
Fim.
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